De como criar um personagem

Lo Cucaracha in Sampa City by Thiago.Renamed_0005

Olá! Aqui estamos nós outra vez. Agora, para falar de um elemento tão importante quanto a história. Se você prestou atenção no título, então já sabe quem é.

É obrigação do criador conhecer seu personagem a fundo. Sabe aquele seu amigo ou sua amiga de longa data? Você consegue imaginar o que ele ou ela falariam diante de uma situação qualquer. Até adivinha a reação desse(a) amigo(a), não adivinha? Pois é. O criador tem que ter esse nível de intimidade com seu personagem.

A criação do personagem é uma coisa relativamente sem muito controle. De repente você o imagina, desenha num pedaço de papel e ele nasce. Mas tem uma parte da criação que dá, sim, pra controlar, e muito bem: a personalidade e o visual dele.

Personalidade: deixe seu personagem interessante. Leve um tempo para pensar nos aspectos psicológicos dele. Ele é um cara legal, certinho, educado demais, ou é encrenqueiro, brigão e malcriado? Ou será que se comporta das duas formas, dependendo da situação?

Para ajudar, seguem algumas perguntas que você deve se fazer, com relação ao seu personagem, que eu adaptei do livro Sociologia das Histórias aos Quadradinhos (Le Monde Étonnant des Band Dessinées), de Jacques Marny:

  • Qual a idade do personagem?
  • Ele tem família ou é um herói solitário?
  • Tem alguma profissão ou é um estudante?
  • Como é o relacionamento dele com outros personagens?
  • Ele age por impulso ou experimenta momentos de hesitação?
  • Qual a reação dele diante de um fracasso?
  • Quais são seus inimigos? E como ele reage frente a estes?
  • Como ele se expressa (gíria, erros de português, formalmente, com jargão técnico demais…)?

 

Além de responder a essas perguntas, facilita muito descrever seu personagem com adjetivos. Só tome cuidado: não use palavras como gordo/magro, alto/baixo, branco/negro/japonês – isso a gente resolve quando vai cuidar do visual dele. Como já dissemos: o foco é na personalidade. Escolha adjetivos como medroso/valente, romântico/não romântico, tímido/atirado, inteligente/lerdo, ingênuo/malandro, xavequeiro/calado, religioso/ateu etc.

Invente uma história de vida de seu personagem. De onde ele veio? O que fazia na infância? Quem eram seus pais? Existe algum tipo de trauma que ele não superou e o faz agir do modo como age? Pense em fatos relevantes para o histórico dele.

 

Segue a descrição de alguns personagens meus, da HQ O Extracurricular  Cucaracha:

PersonaGENS

 

Visual: o aspecto físico dos personagens também é importante. No caso dos garotos da ilustração, todos têm catorze anos e estudam na Escola Santa Cola. Mesmo tendo esses dois pontos em comum, eles são diferentes. Quanto mais diferentes entre si, melhor. Embora eu não tenha nada contra, não queremos um monte de Smurfs nas nossas histórias, certo?

Leve um tempo para bolar o visual do seu personagem. Não esqueça de que esse visual deve ser relativamente fácil, já que você vai desenhá-lo bastante. Que graça tem criar um personagem que não dá prazer desenhar?

 

Antepenúltima dica: não crie nenhum personagem baseado em outro já existente! Você corre dois riscos: o de um processo por plágio e o de virar chacota, caso invente um sujeito nervosinho, com cabelos que lembrem chifres, que solte lâminas pelas costas das mãos e que “sara depressa”.

Penúltima dica: um pouco de inconsistência torna seu personagem mais profundo. Se ele for um vilão, pode ser um tremendo egoísta; diante de um interesse amoroso, porém, ele se mostra uma pessoa generosa, carinhosa e até engraçada.

Última dica: REGISTRE seus personagens na Biblioteca Nacional.

 

Um abração e até mês que vem!

Tirinhas – uma arte à parte

Papai e Eu 3 e 4.Renamed_0003

 

Você gosta de tirinhas? Gostaria de aprender como se faz uma tirinha?

Porque eu tenho uma notícia ruim e uma boa pra dar.

A ruim: para fazer uma tira, você precisa ter as manhas de resumir. Transmitir uma ideia em poucas palavras. Ter um texto “enxuto”. Saber simplificar.

A boa: quem consegue contar uma história numa tirinha, consegue contar histórias em quaisquer tamanhos. Em uma página, em 10, 20 ou 853. Embora eu acredite que nem todo mundo tenha paciência de ler um quadrinho com 853 páginas.

Numa tirinha, não se permite enrolar: temos que ir direto ao ponto. A gente dispõe de um espaço bem curto: três, quatro, cinco quadrinhos no máximo! Existem tiras com dois quadrinhos, e até com um. Com um, vira cartum. Perdoem a rima.

E qual o segredo da tirinha?

Não tem. Desde que você pratique bastante a arte da concisão. Uma pessoa concisa é aquela que sabe transmitir suas ideias em poucas palavras. Ou poucas imagens.

Há duas formas básicas de se criar uma piada em tiras: a primeira é mostrar uma parte da situação, para, no último quadrinho, revelar a situação completa; a segunda é fazer o leitor pensar que vai acontecer uma coisa e, no finzinho, acontecer outra.

Cucaracha Tira 11

Papai e Eu 002.Renamed_0003

Só uma coisa: não fique apenas nessas fórmulas. Use sua sensibilidade para ver o que funciona pra você.

Agora vamos pôr a mão na massa!

Transforme os textos abaixo em tirinhas de três quadrinhos:

  • A mãe no médico: “Ah, doutor, eu não sei mais o que fazer!” Já tentei de tudo: pedi com jeitinho, deixei de castigo, mas meu filho não quer comer ovo!” O médico responde: “Já tentou tirar a casca?”
  • Dois amigos conversando: “Nossa, custou mas consegui! Depois de três dias me matando de investigar, perguntando pra todo mundo, descobri o nome daquela aluna nova. É Lucileide!” O amigo responde: “Não! É LuciNEIDE!”. O primeiro emenda, sorridente: “Quatro dias.”
  • Dois rapazes conversando. Um deles pergunta: “Minha esposa tá grávida. Você sabe qual o exame que se faz pra ver o bebê?”. O outro retruca: “Bom, tem tomografia e ultrassonografia!”. O futuro pai continua: “E pra ver o sexo”? Responde o amigo: “Aí é pornografia!”

 

À medida que você pratica, sem querer vai começar a assimilar o timing das tirinhas, ou seja, a noção do tempo da piada. Aos poucos, você vai bolar piadas curtas. Também vai perceber que alguns assuntos rendem mais de uma tirinha. Tenha isso em mente se quiser produzir tirinhas com regularidade – todo dia ou toda semana. Às vezes uma situação engraçada que alguém conta pode se tornar uma tirinha. Todas essas do exercício se basearam em coisas que eu vivi ou escutei.

 

Penúltima dica: Um bom treino é pegar essas piadinhas conhecidas, de loira, de português ou de papagaio, e passá-las para o formato de tirinhas.

Última dica: Evite repetir demais as fórmulas que passei, caso contrário suas piadas ficam previsíveis. Como eu disse, use a sensibilidade para ver o que funciona, o que faz rir.

 

Um abraço e até semana que vem!

Medidas, Ângulos e Quadros ― calma, não é aula de geometria…

Oi! Tudo bom?

Chegamos ao terceiro post de dicas para produzir suas HQs, e se você me acompanhou até agora, sinal de que está gostando. Obrigado!!!

Vamos agora passar para dicas de diagramação

Imagino que você saiba que os quadrinhos não são desenhados no tamanho em que são lidos, e sim numa página maior, chamada de original. Existem pelo menos três formatos básicos: o americano, o mangá e o europeu. Fiz algumas pesquisas na internet, e cheguei às seguintes dimensões para cada um deles:

  • Formato americano : 6,75 x 11, 25 polegadas (mais ou menos 17,14 x 28,57 cm)
  • Mangá:  ( 18,2 × 25,7 cm )
  • Europeu: 28,5 x 39 cm ― provavelmente utilizam papel A2, visto que em A3 essas dimensões ficam apertadas. Nem todos os europeus seguem essa linha. Os italianos da Editora Bonelli, por exemplo, preferem o formato americano.

Atenção: são medidas aproximadas! Para mais segurança, consulte um profissional do ramo e pergunte em que dimensões ele trabalha.

Particularmente, uso 27,7 por 37,9 cm com margens de 1 cm à esquerda e à direita e 3 cm e 1,2 cm acima e abaixo, já que trabalho mais o formato europeu. Assim, posso colocar tranquilamente de 8 a 12 quadrinhos na página. Caso você prefira os outros, basta levar as medidas deles a uma folha A3.

Agora vamos à diagramação das páginas…

O americano, em geral, trabalha usando desde splash pages (página única, ou dupla, com apenas uma ilustração) a páginas com até nove quadrinhos. Pessoalmente acho, nesse formato, que seis por página é o ideal. Sete, hmmm, tudo bem… Agora, se passar disso, os quadrinhos começam a ficam espremidos. Os detalhes desaparecem. Ainda mais naquelas revistas antigas, publicadas em formatinho!

Também evito diagramar apenas quatro quadrinhos por página. Tem gente que abusa desse recurso. Eu não gosto: sinto que estou tapeando o leitor, porque parece que a história acaba depressa.

Você pode diagramar suas páginas no esquemão “dois por quatro” (ou “dois por três”), como faz o Mauricio de Sousa, sem problema. A questão é que isso funciona bem pra ele porque, primeiro, a Turma da Mônica está há décadas no mercado; segundo, quem curte esse tipo de gibi quer ler a história pra passar o tempo e pronto. Quem gosta de apreciar o desenho, as angulações, a narrativa, vai atrás de outras HQs… concorda?

Segue uma página minha que foge do “dois por três”.

Mecônio Magnânimo 2

Perceba que há uma variação nos enquadramentos: mostramos o personagem Mecônio de frente para a câmera, apenas seus olhos, ele de corpo inteiro no cenário, ele visto de cima. Gosto de fazer isso, porque pra mim, quadrinho tem mais a ver com cinema, com suas inúmeras angulações e enquadramentos, do que com o teatro, que mostra sempre o mesmo plano.

Por falar em plano, você tem uma grande variedade deles para usar nas suas histórias! Quer ver?

Plano Geral: o que mostra o cenário todo.

Plano geral

Plano Americano: mostra apenas os elementos envolvidos na cena. Geralmente corta no joelho do personagem.

Plano americano

Plano Médio: Corta na cintura dos personagens.

Plano médio

Primeiro Plano ou close: Mostra os rostos dos personagens.

Primeiro plano

Primeiríssimo Primeiro Plano ou Plano detalhe: chama a atenção de um elemento da história.

Plano de detalhe

Além dos planos, temos as angulações. Basicamente duas.

Câmera alta ou Ploungeé ― que pega a cena de cima.

Câmera alta

Câmera baixa ou contraploungeé  ― que pega a cena de baixo.

Câmera baixa

Uma dica da Marvel: em cada página, sempre coloque pelo menos um quadrinho com plano geral.

Uma dica europeia: não esqueça de trabalhar os cenários; embora não pareça, eles ajudam a contar sua história.

Uma dica minha: procure sempre o ângulo que melhor transmitir a intenção da história. Por exemplo, os closes indicam a emoção do personagem.

Curtiu? Então vá pra sua mesa de trabalho e ponha a mão na massa!

Nos vemos semana que vem!!!

Abraços!

Os quadrinhos coloridos fazem parte da HQ Rastreadores da Taça Perdida – o segredo da Jules Rimet
Saiba mais aqui!

“A ideia precisa SAIR do papel”, é uma frase que não vale pra quadrinhos. As ideias têm mais é que IR pro papel, pra TODO MUNDO LER!

Bila!!!!!

Oi, tudo bom?

Semana passada eu me apresentei e disse que ia começar a ajudar quem deseja criar/fazer/produzir uma história em quadrinhos. Estou partindo do princípio de que você já sabe desenhar, tem boas noções ou, como no meu caso, engana bem nesse quesito…

Então chega de papo furado: vamos começar a trabalhar!

Primeiro:  a menos que você seja o Rei do Improviso ou queira apenas brincar de fazer quadrinhos, não comece desenhando sua história direto no papel, um quadrinho de cada vez. Planeje antes. Sempre que você for criar sua história, é bom partir de um texto escrito, pra ter uma base.

Segundo: tenho um método que desenvolvi com um amigo escritor, que é colocar sua ideia em itens, e  por isso batizamos esse método de ITEM-sificando. É bem fácil: Para cada ação da sua história, coloque um número na frente e escreva uma frase pra descrever essa ação.

Como primeiro exemplo, vamos pegar uma historinha de uma página.

Vamos fazer isso juntos!!!

  1. Dois personagens, A e B: um deles está saindo do banheiro, olhando outro, que se aproxima, ansioso e perguntando:

– Cê fez cocô ou xixi? – Diz o personagem A.

– Xixi. – responde o personagem B.

  1. O personagem A avança porta adentro. O B fica do lado de fora.
  2. Um quadrinho com B de mãos nas costas, olhando para o nada.
  3. O personagem A saindo do banheiro, agarrado à maçaneta da porta, quase caindo, suado e furioso. Atrás dele, sai uma fumaça densa e branca.

– Mentiroso! Você disse que tinha feito xixi! (A)

– E fiz.(B)

  1. Close de B, totalmente tranquilo.
    – Você não perguntou nada sobre peidar…

Como eu disse, uma história simples. Eu usei cinco itens para contá-la, que correspondem a cinco quadrinhos. Isso se chama decupagem.

decupagem
substantivo feminino
  1. 1.
    cine, tv: divisão de um roteiro em cenas, sequências e planos numerados, para facilitar a gravação.
  2. 2.
    cine, rádio, tv: listagem de material filmado, ou gravado em fita (de vídeo ou de áudio), para posterior seleção dos trechos a serem aproveitados na edição.

Embora o termo venha do cinema e da TV, a ideia pode ser usada do mesmo modo para os quadrinhos. Sabe por quê? Pra que qualquer pessoa que não seja o autor consiga enxergar o que está acontecendo na história. Isso é muito importante caso você vá apenas escrever para outra pessoa desenhar.

Se você mesmo for desenhar a história, vá para a segunda parte: faça o esboço.
Sim, agora é a hora de desenhar cada quadrinho separadamente no papel!

Veja como ficou nosso esboço.

Rascunho

Perceba que eu acrescentei um título ao lado. Claro, a história precisa ser apresentada ao leitor. No caso, apresentei a história e o personagem (Mecônio).
Outro detalhe: variação nos ângulos de câmera e enquadramentos. Claro que você pode fazer a HQ toda sempre no mesmo ângulo. Os quadrinhos do Mauricio de Sousa são assim.
No caso da nossa historinha, optei pela variação para deixar a narrativa mais dinâmica. Gostou?

Penúltima dica: a história raramente sai certinha da primeira vez. Depois que você tiver escrito, espere um tempo, leia-a novamente e veja se não esqueceu algum detalhe. Se ela já estiver do jeito que você gosta, vá pro esboço!
Última dica: preste atenção nos filmes e nos quadrinhos para perceber as variações que eles usam.

Terminado o esboço, comece a produzir sua HQ!

É isso. Espero que você tenha curtido essa aula.
Até a próxima semana!!!