Dia do Quadrinho Nacional, não teremos aulas nem dicas. Quer ler o texto assim mesmo?

 

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O 30 de janeiro tem um sabor diferente para mim, por dois motivos. Por ser o Dia do Quadrinho Nacional e porque, naquele mesmo dia, em 1994, meu pai faleceu. E ele também era um apaixonado por quadrinhos.

Garoto nos anos 1930 e 1940, Giorgio Cappelli (sim, temos o mesmo nome) era nerd antes de esse termo, e até mesmo o conceito, existirem. Tinha coleções de revistas de quadrinhos – acabei herdando muitas das que não sumiram -, era fã de Will Eisner, Alex Raymond, Milton Caniff, Guido Crepax, Hugo Pratt, Hergé, Moebius… Quadrinho de super-herói? Nem chegava perto. Em termos de vilões cruéis e psicopatas, preferia os inimigos do Dick Tracy aos do Batman.

Se deixassem, passava horas conversando sobre filmes e histórias em quadrinhos. Quando tinha um tempo livre, ia até seu escritório, nos fundos da nossa casa, e ficava desenhando as aventuras de seus personagens. Havia um policial, cujo nome não me recordo, e outros dois com os quais ele passava mais tempo: Cris Colom (uma espécie de Flash Gordon nacional) e Ércio Rocha (fortemente influenciado pelas séries Tintim e Terry e os Piratas).

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Lá pelo início dos anos 1990, Ércio Rocha conseguiu um espaço como tirinhas diárias no extinto jornal paulistano Notícias Populares. Não sei como meu pai conseguia, já idoso, depois de um dia de trabalho num escritório de arquitetura, chegar em casa, jantar e produzir as historinhas do personagem.

Em 1992, o Governo Federal resolveu multá-lo com uma dívida de imposto de renda cujo valor dava para comprar uma casa. Embora o erro fosse deles, a corda, como se diz, sempre rompe no lado mais fraco.

Desgostoso e já com uma certa idade (tinha 65 anos), resolveu produzir e vender um fanzine “só pela diversão”. Aproveitou as tiras já prontas e somou a um material inédito.  Batizou o fanzine de Ércio Rocha e apresentou outros personagens: Minuano, um faroeste gaúcho; Jose, uma jornalista que se vê abduzida por fêmeas humanoides extraterrestres; e a série Um Conto de Natal, que reinterpreta a concepção e o nascimento de Jesus Cristo sob o ponto de vista de um Arcanjo Gabriel… alienígena!

Gostaria de poder contar aqui alguma história bacana entre meu pai e eu. Mas se fizesse isso, estaria inventando. Nunca nos demos bem. Aos 27 anos, saí de casa para morar no Mato Grosso. Durante oito meses, conversávamos por correspondência.

Voltei para passar o natal com minha família, e percebi que a distância saudável acabou me aproximando de meu pai. Infelizmente, ele se foi pouco mais de um mês depois. O lado bom dessa história é que aprendemos a nos entender e, melhor ainda, respeitar nossas diferenças.

O 30 de janeiro sempre trará, para mim, um sentimento dúbio de alegria e saudade.

Peço desculpas pelo desabafo.

Nos vemos na próxima semana.

Criando seu próprio universo

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Tão importante quanto ter um ou vários personagens bem construídos, você precisa saber também onde eles estão pondo os pés. Ao descrevermos o espaço em que vivem, a realidade que enfrentam, sua rotina, estamos criando um mundo onde nossos personagens vão viver.

Empregue um tempo nisso. Nada de preguiça! Pergunte-se onde seus personagens vivem. Numa cidade grande ou pequena? No campo ou numa estação em órbita de algum planeta? Na Terra ou em algum sistema planetário que você inventou? Num cenário pós-apocalíptico, numa era vitoriana steampunk ou numa realidade de fantasia estilo RPG? Na selva do período Cretáceo ou a bordo de uma nave espacial? Num navio pirata ou num apartamento de dois dormitórios? Estão vivendo num momento histórico do presente ou do passado?

As opções são inúmeras. Se nenhuma dessas agradou, faça uma pesquisa. Vai que você inventa algo totalmente inédito e diferente? Estou torcendo pra isso.

O Macro e o Micro Universo

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Um personagem pode ter uma ou várias esferas de influência, ou ser influenciado pelo que acontece a seu redor. Por exemplo, o presidente de um país tem uma influência muito mais extensa do que uma garota de 13 anos que mora com os pais, convive com seus amigos e amigas e vai à escola.

Se considerarmos ambos os personagens – presidente e garota – dentro de um só universo e compararmos suas realidades, o presidente se encontra num macro universo e a garota, num micro universo.

E se algo acontecesse e o presidente e essa garota travassem algum tipo de contato? Dependendo de como se desenvolve a história, ela pode ou não passar a ter alguma influência. Uma coisa, porém, é certa: o universo da garota ficará bem mais amplo.

Na minha HQ O Extracurricular Cucaracha, existem esses dois universos. No micro, temos o dia a dia de garotos e garotas que frequentam a Escola Santa Cola. Essa instituição tem, entre seus alunos, um jovem mago, um cavaleiro medieval adolescente, uma vampira teen, um menino caçador de monstros, aprendizes de ninja e até mesmo um robô e um alienígena. No meio de tantos personagens secundários bizarros, não fica tão estranho se um ou outro se tornarem super-heróis. Pois é o que acontece: um dos garotos ganha poderes de barata!

Já no macro universo dessa HQ, vemos: dois clãs ninjas, uma sociedade secreta, uma madre superiora com um passado nada ortodoxo (ela luta sumô) e uma escola aparentemente católica com bastidores misteriosos (algo que se percebe na própria arquitetura do local, que não tem lá muita cara de “colégio católico”).

Você não precisa apresentar todos os detalhes para seu leitor, mas precisa deles para sua obra ficar mais consistente. Acredite, desenvolver tudo isso vai facilitar seu trabalho e até apresentar-lhe mais opções e alternativas para “viajar” no seu mundo.

Descreva seu universo em “fichas” ou “arquivos” separados. Conte “a história antes da história’ dele (lembra disto?). Exemplifique para você mesmo as situações, os locais, os tipos que contracenam com seus personagens (numa HQ de fantasia, seu protagonista pode ser uma fada em meio a orcs, elfos, sereias, humanos, cavaleiros…).

Capriche nesse ponto e, sem dúvida, escrever suas histórias ficará mais fácil e bem mais divertido.

Até a próxima semana!

 

 

 

Clichês e estereótipos – duas pragas a evitar

 

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Não há nada que me incomode mais numa história do que eu adivinhar o que vai acontecer. Detesto coisas previsíveis. Sabe aqueles filmes ou quadrinhos em que o protagonista se encontra numa situação complicadíssima, uma encrenca feia, correndo risco de morrer… e aí acorda?

Ou então aquele personagem com óculos fundo de garrafa e várias canetas no bolso da camisa, geralmente abotoada até o pescoço?

Senhoritas e senhoritos, apresento-lhes a dupla Clichê e Estereótipo!

O que é clichê?

O significado original de clichê vem da imprensa. Antes que os computadores passassem a ser utilizados na produção de qualquer tipo de texto, os profissionais usavam placas metálicas com palavras de um texto e/ou imagens em relevo; esse material, tão logo organizado, era impresso em papel. Era usado várias vezes. Daí para clichê passar a significar “coisa repetitiva”, “lugar comum” ou “chavão” não precisou muito.

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O exemplo citado, do personagem que acorda e percebe que “tudo não passou de um sonho”, é invenção do autor britânico Lewis Carroll. Pesquise sobre as obras dele. Se eu contar o nome do livro, estarei dando um spoiler danado.

Existem trocentos clichês por aí: o do personagem coitadinho que ganha poderes e vira herói (Harry Potter, Homem-Aranha, O Máskara…); o do protagonista que encontra seu sósia malvado; o do personagem que descobre que vai morrer e parte para atos edificantes até descobrir que não vai morrer; o do mocinho que é acusado de um crime que não cometeu e tem que fugir de meio mundo até provar sua inocência; o do herói que  descobre quem é o culpado pelo crime, e antes de morrer, o criminoso confesso explica suas motivações e seus planos, dando chance para o herói se safar; o casal que começa a história se odiando e acaba se apaixonando.

Clichê tem de montão por aí. Não se preocupe em pesquisá-los, porque você tem a vida inteira pela frente e, acredite: qualquer hora você vai esbarrar com eles!

Quer mesmo escrever histórias bacanas? Fuja dessa porcaria.

Por exemplo, colocar seu personagem sofrendo só pra ganhar a simpatia do leitor é um truque muito baixo. Em vez disso, crie um personagem simpático. Ou divertido. Ou inteligente. Vale até fazê-lo dar o troco em quem aprontou com ele.

Outra opção é subverter o clichê. Deixe todo mundo pensar que vai acontecer uma coisa e evite que a “coisa” aconteça. Um sujeito mordido por um vampiro se transforma não num monstro, mas num sanguessuga tímido. O ajudante do vilão que de repente se mostra mais esperto que seu chefe. Um marido machão que acha que manda em casa, sem perceber que a esposa o tem na palma da mão e é ele quem a obedece. As opções são quase infinitas, e a diversão, garantida. Um exemplo de subversão de clichês é minha HQ O Extracurricular Cucaracha. Novamente, não posso falar nada porque senão estraga a surpresa.

E estereótipo?

Aqui temos um assunto bem delicado. De uns anos para cá, percebi que as pessoas estão se transformando em estereótipos ambulantes. Tem-se a impressão de que personagens que víamos em quadrinhos, no cinema, nos comerciais de TV e em novelas decidiram criar três dimensões só para nos assombrar: o roqueiro de cabelo comprido que só se veste de preto com camiseta de banda; a moça masculinizada acima do peso, de cabelo curto e óculos de armação grossa; o adolescente de boné, óculos escuros, camiseta “Xing Ling”, bermuda e tênis; o religioso de cabelo bem curtinho, camisa com gravata, calça social e Bíblia na mão. Alguns desses estereótipos andam em grupos, vestidos exatamente da mesma forma, com algumas variações. Dependendo de onde mora, garanto que você consegue identificar algumas dessas pessoas.

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Estereótipos são cansativos e podem gerar a antipatia no seu leitor.

Mais uma vez, o truque consiste em subverter.

Em vez da loira burra, que tal uma mulher muito bonita e muito engraçada? Em vez do atleta fortão que faz bullying nos outros, um sujeito musculoso, bom de briga e nerd? Ou um mocinho nem tão certinho contra um vilão nem tão malvado?

Criar personagens assim é bem divertido. Acredite!

O melhor de tudo é que, quando quebramos os clichês e os estereótipos, sabe o que acontece? Além de sermos originais, a gente contribui pra diminuir os preconceitos.

Até semana que vem!

Vícios que você pode (e deve) perder

1) Não faça sua HQ sem saber pra quem

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Enquanto estiver bolando sua história em quadrinhos, tenha sempre em mente o leitor dela. Pra quem você está escrevendo? Homens? Mulheres? Crianças? Adolescentes? Adultos? Religiosos? Ateus? Marinheiros? Bombeiros? Presidiários?

Conheço uma revista em quadrinhos – cujo nome prefiro não mencionar – que não me agrada por uma série de fatores. Embora ache a ideia boa, sinto que é mal trabalhada. Talvez me desagrade porque eu não seja o público-alvo. Mas por mais que eu me esforce, não consigo imaginar quem seria! Tenho uma forte suspeita de que nem o autor sabe!

2) Não deixe sua HQ envelhecer

A noiva mumificada

Desde que me conheço por “escritor-quadrinista”, vivo me perguntando por que certos filmes, quadrinhos, romances etc. ficam “datados” depois de um tempo, ao passo que outros continuam atuais, como se tivessem sido feitos ontem. Após matutar muito, percebi que envelhecem as histórias que tratam de assuntos passageiros, modinhas descartáveis ou se fixam demais na própria época em que foram criadas. Os que falam sobre coisas que sempre existiram e sempre existirão – relacionamentos, situações tipicamente humanas, defeitos e virtudes, intrigas, picuinhas, religiões etc. – conseguem atravessar décadas imunes à passagem do tempo.

Lamento informar que não encontrei uma “receita infalível” para a longevidade de uma narrativa; apenas percebi que histórias com um pé no que existe de mais humano em cada um de nós conseguem conservar-se atuais muito melhor do que aquelas centradas no descartável e no esquecível.

Consegui defender minha posição?

3) Não pense localmente

Jackie Chan

Sabe quais as semelhanças e as diferenças entre o Jackie Chan, o Chaves e Os Trapalhões? As semelhanças: todos fazem humor. As diferenças: Jackie Chan é conhecido mundialmente, Chaves é famoso na América Latina e os Trapalhões são célebres apenas no Brasil (talvez em Portugal).

Um dos maiores “pecados” dos nossos artistas e profissionais do entretenimento é que eles só produzem para o público local. Praticamente ninguém se preocupa em criar um material “tipo exportação”. O nome disso é preguiça.

Independentemente do seu público-alvo (repetindo: homens, mulheres, crianças, adolescentes, adultos… ) faça um esforço: fale para a maior plateia possível. Imagine: “Será que vão entender essa parte da história fora do Brasil?”

Se a resposta for “não”, use um artifício chamado contexto. Explique para as pessoas o que está acontecendo. Na minha HQ Rastreadores da Taça Perdida, que trata de dois aventureiros que vão atrás da Taça Jules Rimet, logo nas primeiras páginas eu apresento uma versão fantasiosa de quando, onde e como o troféu foi roubado – assim, quem nunca ouviu falar desse fato acaba entendendo a importância da Jules Rimet para o futebol e compreendendo os motivos pelos quais os protagonistas são contratados para encontrar a Taça Perdida.

Isso se chama contextualizar o leitor.

Em geral, brasileiros torcem o nariz para contextos. Querem entrar no meio da sessão de cinema e entender a história já começada.

Não faça isso com você mesmo, nem com seu público. Pegue na mão dele e conduza-o por todo o caminho. Só tome cuidado para não entregar tudo mastigadinho. Surpreenda-o de vez em quando.

Abraços e até semana que vem!