Vícios que você pode (e deve) perder

1) Não faça sua HQ sem saber pra quem

Bila 1A

Enquanto estiver bolando sua história em quadrinhos, tenha sempre em mente o leitor dela. Pra quem você está escrevendo? Homens? Mulheres? Crianças? Adolescentes? Adultos? Religiosos? Ateus? Marinheiros? Bombeiros? Presidiários?

Conheço uma revista em quadrinhos – cujo nome prefiro não mencionar – que não me agrada por uma série de fatores. Embora ache a ideia boa, sinto que é mal trabalhada. Talvez me desagrade porque eu não seja o público-alvo. Mas por mais que eu me esforce, não consigo imaginar quem seria! Tenho uma forte suspeita de que nem o autor sabe!

2) Não deixe sua HQ envelhecer

A noiva mumificada

Desde que me conheço por “escritor-quadrinista”, vivo me perguntando por que certos filmes, quadrinhos, romances etc. ficam “datados” depois de um tempo, ao passo que outros continuam atuais, como se tivessem sido feitos ontem. Após matutar muito, percebi que envelhecem as histórias que tratam de assuntos passageiros, modinhas descartáveis ou se fixam demais na própria época em que foram criadas. Os que falam sobre coisas que sempre existiram e sempre existirão – relacionamentos, situações tipicamente humanas, defeitos e virtudes, intrigas, picuinhas, religiões etc. – conseguem atravessar décadas imunes à passagem do tempo.

Lamento informar que não encontrei uma “receita infalível” para a longevidade de uma narrativa; apenas percebi que histórias com um pé no que existe de mais humano em cada um de nós conseguem conservar-se atuais muito melhor do que aquelas centradas no descartável e no esquecível.

Consegui defender minha posição?

3) Não pense localmente

Jackie Chan

Sabe quais as semelhanças e as diferenças entre o Jackie Chan, o Chaves e Os Trapalhões? As semelhanças: todos fazem humor. As diferenças: Jackie Chan é conhecido mundialmente, Chaves é famoso na América Latina e os Trapalhões são célebres apenas no Brasil (talvez em Portugal).

Um dos maiores “pecados” dos nossos artistas e profissionais do entretenimento é que eles só produzem para o público local. Praticamente ninguém se preocupa em criar um material “tipo exportação”. O nome disso é preguiça.

Independentemente do seu público-alvo (repetindo: homens, mulheres, crianças, adolescentes, adultos… ) faça um esforço: fale para a maior plateia possível. Imagine: “Será que vão entender essa parte da história fora do Brasil?”

Se a resposta for “não”, use um artifício chamado contexto. Explique para as pessoas o que está acontecendo. Na minha HQ Rastreadores da Taça Perdida, que trata de dois aventureiros que vão atrás da Taça Jules Rimet, logo nas primeiras páginas eu apresento uma versão fantasiosa de quando, onde e como o troféu foi roubado – assim, quem nunca ouviu falar desse fato acaba entendendo a importância da Jules Rimet para o futebol e compreendendo os motivos pelos quais os protagonistas são contratados para encontrar a Taça Perdida.

Isso se chama contextualizar o leitor.

Em geral, brasileiros torcem o nariz para contextos. Querem entrar no meio da sessão de cinema e entender a história já começada.

Não faça isso com você mesmo, nem com seu público. Pegue na mão dele e conduza-o por todo o caminho. Só tome cuidado para não entregar tudo mastigadinho. Surpreenda-o de vez em quando.

Abraços e até semana que vem!

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