Da Importância do Letreiramento nos Quadrinhos (1).

Olá!

Você saberia citar dois elementos exclusivos Histórias em Quadrinhos? Talvez existam mais… agora, dois deles definem a mídia HQ.  Pense um pouco.

Cuca0001O Extracurricular Cucaracha.

 

Isso mesmo. Os balões e as onomatopeias.

Eles não existem em mais nenhum outro lugar. É verdade que as onomatopeias vêm da literatura e, com alguma pesquisa, podemos encontrar textos em prosa e poesia que lançam mão dessa figura de linguagem. Agora, com esse grau de cumplicidade que aparece nos quadrinhos? Praticamente coadjuvando com personagens? Dificilmente encontraremos algo que chegue perto. E não, não vale citar as onomatopeias do seriado do Batman dos anos 60 nem os quadros do Roy Lichtenstein!

Whaam! 1963 by Roy Lichtenstein 1923-1997

Passei quase a infância toda achando que isso era parte de uma HQ maior.

Alguns estudiosos só definem o surgimento dos quadrinhos a partir do momento em que os balões entram em cena. Estes exemplos abaixo seriam, para alguns, os precursores das HQs.

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Rodolphe Töpffer (1833) – pesquise sobre ele.

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Max und Moritz (1850) – deve haver em pdf…

 

Bom, tivemos bastante teoria, agora vamos passar à prática.

 

Ordem dos balões

Para nós, ocidentais, a leitura se dá da esquerda para a direita, e de cima para baixo. Por mais óbvio que pareça, às vezes os quadrinistas esquecem dessa regra. Daí que você às vezes pode se confundir com a ordem de um diálogo, e precisa ler de novo. Isso é péssimo. Quebra todo o ritmo da história.

Neste quadro da minha HQ O Extracurricular Cucaracha, você lê os balões de cima para baixo e depois da esquerda para a direita. Como eu consegui essa façanha?

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Opa! Spoiler?

Fácil: a distância entre os balões “dribla” a tendência de se ler do lado esquerdo para o lado direito.

Se você tiver alguma dúvida quanto a isso, durante a produção de seu quadrinho, verifique, com um amigo que nunca colocou os olhos neles, se a leitura está seguindo o padrão ou se ele tem dificuldades em acompanhar os diálogos.

 

Peso das palavras

O grande Will Eisner tinha um letrista fora de série em sua equipe. Veja, nestes balões, com que facilidade o texto conduz o leitor. Você nem precisa saber falar inglês para notar as mudanças na entonação de voz dos personagens.

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Neste exemplo, perceba como o balão inflado indica o ego enorme do artista.

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Aqui, a “voz” do narrador ganha uma letra com serifa.

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Sinta a força do drama interno do personagem! Ele está paralisado pelo dilema!

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“Por quê?”

Sem contar as belíssimas composições que Eisner fazia, mesclando desenhos e texto. Quantos autores, hoje em dia, fazem esse tipo de “casamento” artístico?

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Não tenha receio de fazer experimentações nas suas histórias. Busque inspiração em outras linguagens: pintura, arquitetura, dança, poesia, ou até mesmo floricultura! Por que não?

Semana que vem vamos abordar as onomatopeias. Enquanto isso, visite estes dois sites para baixar letras. Sim, baixar. Hoje em dia, quem faz as letras dos quadrinhos  à mão? Muito pouca gente.

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Hoje vou fugir, embora não muito, do tema. Vocês deixam?

 

Olá!

Para mim não existe nada mais chato nos dias de hoje do que o patrulhamento ideológico. Não se pode brincar com isso, não se pode fazer piada com aquilo, tal assunto é delicado, esta outra coisa aqui é tabu. De alguns anos para cá, a televisão aberta e a Internet tornaram-se terreno fértil para esse tipo de panaquice.

Do que estou falando? Dessa maldição da vida moderna, o politicamente correto.

Acusado por uns e outros de ajudar a promover a tendência, o comediante britânico John Cleese afirmou recentemente que o politicamente correto é invenção de pessoas que não conseguem lidar com as próprias emoções e, por isso, desejam reprimir as emoções das outras pessoas a qualquer custo; o escritor Michael Crichton (1942-2008), nos anos 1990, proferiu uma frase muito verdadeira: “Quem quer o politicamente correto não quer mudar nada”.

Tá, mas qual a relação entre isso e as histórias em quadrinho?

Chego lá, ansioso(a)!

O politicamente correto é uma forma mesquinha, sutil e cruel de reprimir a criatividade e destruir o humor. De inocular o medo. E nós, como autores, não podemos, de forma alguma, ter medo. A partir do instante em que você se definiu como artista, a rebeldia faz parte do seu DNA. Para seu próprio bem, proíba a si próprio de baixar a cabeça para qualquer tipo de repressão ou cerceamento de sua criatividade.

Quando surgir alguma dúvida sobre como abordar um assunto delicado, apele, sempre, para o bom-senso e o bom gosto. Aprenda a escutar sua intuição.

Por exemplo, zoar com algum gordo na escola é uma coisa. Partir para a agressão física porque a pessoa é diferente demonstra falta de inteligência. Agora, se você é o alvo da zoação, use o cérebro e responda com uma zoação pior ainda. É uma das lições que ensino no álbum O Extracurricular Cucaracha.

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Lucky Luke, uma das vítimas do politicamente correto. Ele não fuma mais, só masca capim. Ainda bem que ficou só nisso.

Existe vida inteligente no politicamente correto?

Felizmente, sim. Digamos que, na sua história, há pelo menos cinco personagens. Nenhum problema se um deles seja negro, oriental ou portador de alguma deficiência. Isso pode enriquecê-los de alguma forma, aprimorar a trama e levá-la por um caminho diferente. Nas minhas HQs eu procuro colocar ao menos um ou dois negros como personagens de destaque.

Lembra quando eu falei sobre fazer pesquisas? Você pode sofisticar essa ferramenta: antes de colocar algum assunto na sua narrativa, veja se está usando a abordagem certa. Se for alguma brincadeira, procure saber se ficou ou não ofensiva.

Certa vez bolei uma tira sobre um super-herói judeu que não combatia o crime aos sábados, pois, sabidamente, nesse dia, os judeus, em honra a Deus, que descansou no sétimo dia, não trabalham. Mostrei a tira a um amigo judeu e ele não se sentiu ofendido de maneira alguma. Disse que tinha gostado da piada, inclusive.

Ninguém disse que é fácil. Vida de artista nunca é.

Então, futuro quadrinista, me prometa o seguinte:

  • Jamais tenha medo de criar.
  • Se errar na dose, admita e peça desculpas.
  • E me ajude, por favor, a combater essa inutilidade chamada politicamente correto.

Abração e até semana que vem!

Persiga seu próprio estilo

Olá!

Dois dos meus sobrinhos passaram um tempo aqui em casa. Um deles me fez ressuscitar uma brincadeira de quando eu tinha menos idade do que eles: colocar uma folha de papel vegetal por cima de uma revista em quadrinhos e passar o lápis por cima dos desenhos. Diversão garantida por algumas horas para um deles, com nove anos, como foi para mim, aos sete.

Naquela época, sem saber, estava fazendo uma espécie de treino para quando fosse desenhar minhas próprias criações.

Já ouvi mais de um profissional afirmar que, para quem quer começar a desenhar, a dica é “pegar seu artista favorito e copiar o estilo dele”. Isso, no entanto é apenas metade da dica que um profissional deveria dar. Se você quer mesmo seguir carreira com HQs, não se torne uma máquina xerox viva do seu ídolo! Procure pelo seu estilo! Para isso, você não pode se fixar numa única influência, e sim no máximo delas. Quantas quiser, desde que não seja apenas uma. Faça disso uma busca séria, nem que leve a vida toda.

Posso afirmar que os quadrinistas que ajudaram a moldar meu estilo foram Francisco Ibañez, Benito Jacovitti, Albert Uderzo e Phillipe Tome. Acabei encontrando meu próprio caminho, a ponto de algumas pessoas afirmarem que meu traço “não tem nada que haver” com os desses artistas. Julgue você mesmo

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De cá pra lá: Ibañez, Jacovitti e Uderzo. Abaixo, Tome.

 

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É sério isso!

O que digo aqui tem mais importância e profundidade do que parece. Em nosso país, aparentemente, somos doutrinados a imitar tudo que vem de fora. É proibido ser original! Fixam na nossa cabeça o pensamento tacanho do “Nada se cria, tudo se copia”; isso, somado a uma preguiça atávica de se informar, pesquisar e quebrar a cabeça, resulta nesse turbilhão de plágios descarados que a gente vê em novelas, filmes nacionais, comerciais de TV e personagens de quadrinhos.

No ramo da música, a coisa só piora, com as versões brasileiras de sucessos internacionais do passado ou do presente. Existia um temo, antigamente, para esse tipo de comportamento: macaco de imitação. Hoje em dia, com a informação muito mais acessível do que há vinte anos (mais ou menos quando a Internet surgiu, 1994), não existe mais desculpa para alguém não ir atrás do que quer.

OPS! Já ia esquecendo!

O lema do blog é “Não critique quem faz: faça!” Bom, melhor voltar ao nosso assunto…!

Falei em buscar o próprio estilo como quadrinista. Faltou mencionar que o mesmo se aplica ao seu roteiro e à sua diagramação de página. Isso é um estudo em paralelo. Autores como Will Eisner e Scott McCLoud publicaram obras que dissecam a linguagem das HQs. No entanto, ler coisas diferentes para assimilar também ajuda.

Pesquise sobre quadrinhos europeus em sites como Ndrangheta e Tralhas Várias. Ali existe muito material que talvez nunca chegue ao Brasil, mas que você pode baixar na sua máquina. No caso de você gostar, pode tentar comprar pela Internet também.

Só não falo dos mangás e dos manhwas (seus correspondentes coreanos cuja pronúncia é parecida), porque são mais fáceis de encontrar por aqui.

Empenhe-se! A ideia original, o traço personalizado e a diagramação inédita vão aparecer! Basta você trabalhar direito e com vontade.

Espero que tenham gostado de mais essas dicas.

Abraços e até a próxima semana!