Hoje vou fugir, embora não muito, do tema. Vocês deixam?

 

Olá!

Para mim não existe nada mais chato nos dias de hoje do que o patrulhamento ideológico. Não se pode brincar com isso, não se pode fazer piada com aquilo, tal assunto é delicado, esta outra coisa aqui é tabu. De alguns anos para cá, a televisão aberta e a Internet tornaram-se terreno fértil para esse tipo de panaquice.

Do que estou falando? Dessa maldição da vida moderna, o politicamente correto.

Acusado por uns e outros de ajudar a promover a tendência, o comediante britânico John Cleese afirmou recentemente que o politicamente correto é invenção de pessoas que não conseguem lidar com as próprias emoções e, por isso, desejam reprimir as emoções das outras pessoas a qualquer custo; o escritor Michael Crichton (1942-2008), nos anos 1990, proferiu uma frase muito verdadeira: “Quem quer o politicamente correto não quer mudar nada”.

Tá, mas qual a relação entre isso e as histórias em quadrinho?

Chego lá, ansioso(a)!

O politicamente correto é uma forma mesquinha, sutil e cruel de reprimir a criatividade e destruir o humor. De inocular o medo. E nós, como autores, não podemos, de forma alguma, ter medo. A partir do instante em que você se definiu como artista, a rebeldia faz parte do seu DNA. Para seu próprio bem, proíba a si próprio de baixar a cabeça para qualquer tipo de repressão ou cerceamento de sua criatividade.

Quando surgir alguma dúvida sobre como abordar um assunto delicado, apele, sempre, para o bom-senso e o bom gosto. Aprenda a escutar sua intuição.

Por exemplo, zoar com algum gordo na escola é uma coisa. Partir para a agressão física porque a pessoa é diferente demonstra falta de inteligência. Agora, se você é o alvo da zoação, use o cérebro e responda com uma zoação pior ainda. É uma das lições que ensino no álbum O Extracurricular Cucaracha.

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Lucky Luke, uma das vítimas do politicamente correto. Ele não fuma mais, só masca capim. Ainda bem que ficou só nisso.

Existe vida inteligente no politicamente correto?

Felizmente, sim. Digamos que, na sua história, há pelo menos cinco personagens. Nenhum problema se um deles seja negro, oriental ou portador de alguma deficiência. Isso pode enriquecê-los de alguma forma, aprimorar a trama e levá-la por um caminho diferente. Nas minhas HQs eu procuro colocar ao menos um ou dois negros como personagens de destaque.

Lembra quando eu falei sobre fazer pesquisas? Você pode sofisticar essa ferramenta: antes de colocar algum assunto na sua narrativa, veja se está usando a abordagem certa. Se for alguma brincadeira, procure saber se ficou ou não ofensiva.

Certa vez bolei uma tira sobre um super-herói judeu que não combatia o crime aos sábados, pois, sabidamente, nesse dia, os judeus, em honra a Deus, que descansou no sétimo dia, não trabalham. Mostrei a tira a um amigo judeu e ele não se sentiu ofendido de maneira alguma. Disse que tinha gostado da piada, inclusive.

Ninguém disse que é fácil. Vida de artista nunca é.

Então, futuro quadrinista, me prometa o seguinte:

  • Jamais tenha medo de criar.
  • Se errar na dose, admita e peça desculpas.
  • E me ajude, por favor, a combater essa inutilidade chamada politicamente correto.

Abração e até semana que vem!

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2 comentários sobre “Hoje vou fugir, embora não muito, do tema. Vocês deixam?

  1. Até a expressão é equivocada! Correto, por que? Quem disse que é correto? Algum papa do Maniqueísmo de plantão? Politicamente, por que? O que achariam Marx, Mao, Fidel ou Stalin da superproteção a gays, negros, etc, só para dar um exemplo.? Comprova-se assim que o termo é na verdade INcorreto!

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    1. Concordo contigo, Carlos! Se “política”, em seu significado primeiro é “o uso correto da palavra”, será que usar “afrodescendente” em vez de “negro” funcionaria para um natural do continente africano? É muita frescura! E tem gente que cai nessa feito patinho. Mal sabem que seus cérebros foram condicionados a pensar como os seguidores dessa turma de assassinos que você citou!

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